Bullying ou a Lei do Mais Forte
E se um dia o seu filho volta para casa pedindo para mudar de colégio?
Pode parecer algo normal como a busca por um novo espaço, para melhorar a adaptação ou o ambiente de aprendizado. Na verdade, ele pode estar sendo vítima de bullying - palavra da língua inglesa que traduz uma série de ações.
Por não possuir equivalente em português, a expressão se tornou universal. Apesar da amplitude que vem ganhando nos últimos anos, não é uma coisa nova. Provavelmente os seus pais já o praticavam quando estavam no colégio. Colocar apelidos, ofender, humilhar, discriminar, excluir, ignorar, intimidar, perseguir, agredir, ferir e quebrar pertences são apenas alguns dos sintomas básicos do bullying. Os alvos comuns são pessoas ou grupos que apresentam características destoantes da grande maioria, sejam estas deficiências físicas ou diferenças étnicas e culturais. São os famosos "rolha de poço", "quatro olhos", "espeto", "bambi", "dumbo", "pinóquio" ou "cabeção".
Segundo pesquisa da Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência - ABRAPIA - realizada em 2002, envolvendo quase seis mil estudantes de quinta a oitava séries de escolas municipais do Rio de Janeiro, 40,5% desses alunos admitiram ter estado diretamente envolvidos em atos de bullying. Os meninos estão muito mais envolvidos, tanto como autores quanto como alvos. Os agressores costumam bater, xingar, roubar e destruir os bens do oprimido. "Sempre fui pequeno, menor que os meus colegas, o que era um prato cheio para sofrer abusos", afirma um dos entrevistados. "Eles roubavam o dinheiro do meu lanche, não me deixavam jogar bola na hora do recreio e me batiam a troco de nada. Uma vez, até rasgaram a minha mochila", completa outro. Outros ainda dizem ter aprendido aprendeu a conviver com o bullying.
Nem todos conseguem se livrar da pressão imposta pelos pequenos opressores. Hoje em dia, já não são raros os casos de adolescentes que invadem o colégio armados, matam colegas e professores e terminam por cometer suicídio. O episódio retratado no documentário "Tiros em Columbine", do cineasta Michael Moore, aborda um dos muitos casos. Em abril de 1999, dois jovens, Eric Harris e Dylan Klebold entraram nA Columbine High School fortemente armados, assassinaram 12 colegas e uma professora, antes de acabarem com as próprias vidas. O fato chocou o mundo, mas, talvez seja mais chocante o motivo que motivou a realização da chacina: eles eram vítimas de bullying. Não é preciso ir muito longe. No Brasil, já houve casos semelhantes de adolescentes armados em escolas, cujos desfechos foram trágicos. Atualmente, diversas pesquisas e programas de intervenção anti-bullying vêm se desenvolvendo em países da Europa e nos Estados Unidos.
Recentemente, um projeto intitulado Training and Mobility of Research Network Project: Nature and Prevention of bullying, mantido pela Comissão Européia, foi concluído em 2001 e teve como objetivo o desenvolvimento do diagnóstico das causas e naturezas do bullying e da exclusão social nas escolas, além de identificar modos de prevenção desses problemas, por meio da integração de diferentes metodologias. O importante é haver uma conscientização por parte dos educadores, pais e dos alunos para que uma das práticas mais antigas do mundo encontre,enfim, o seu ponto final.
Uma Brincadeira Sem Graça.
Os especialistas afirmam que a violência que surge na infância gera reflexos na vida adulta. Um jovem que é vítima da discriminação dos colegas tende a ser retraído, sofre mais de depressão e pode vir a cometer suicídio. Já o agressor pode se tornar violento e vir a cometer crimes. Em entrevista ao jornal O Globo, a filósofa, mestre em Educação e autora de livros como "Limites Sem trauma", Tânia Zagury, afirma que a longo prazo, o bullying pode levar à sensação de impunidade e, conseqüentemente, no futuro, à atitudes anti-sociais, dificuldades no relacionamento afetivo, delinqüência ou atos criminosos. "Pode também levar à atitudes agressivas no trabalho ou à violência familiar - como as que têm acontecido em boates e festas, ou como em Columbine, nos Estados Unidos, quando estudantes armados entraram na escola atirando, matando ou ferindo colegas, professores e outras pessoas sem um alvo definido", completa a filósofa. O coordenador de um dos projetos da ABRAPIA, Aramis Lopes Neto, constatou que 60% das agressões acontece em espaços onde há uma autoridade presente. Nas entrevistas feitas pela equipe de Lopes Neto foram descobertos casos de professores que reforçavam a violência ao chamar de "meu lindo" um garoto feio, por exemplo. "Ao usar apelidos ou chamar várias vezes a atenção de um aluno que tem dificuldades de aprendizado, o professor legitima a violência praticada pelos colegas", opina Lucy Wenzel, coordenadora pedagógica do Colégio Humboldt.
A Ameaça Transcende o Espaço Físico do Colégio
L.F., de 13 anos, começou a ser chamado de "rato" pelos colegas e hoje o apelido é usado pelos professores e, até mesmo, pelos pais do menino. "Já briguei, xinguei, mas até meus pais me chamam de ratão", lamenta o menino. Meninas têm suas próprias armas. Enquanto os meninos usam a agressão física para intimidar, as meninas têm sua própria maneira de maltratar e humilhar as colegas. As agressões verbais são constantemente recorridas para isolar uma colega do grupo. É comum meninas serem chamadas de "galinha", "sapatão" e "mocréia". S.R.M., de 12 anos, era chamada de "oferecida" e "metida" pelas colegas da sexta série porque tinha mais amigos meninos que meninas. "Isso me incomodava muito, mas eu não falava para os professores porque não queria chamar atenção para o problema", diz ela. Hoje, na oitava série, S.R.M. escolheu uma menina mais nova para ser objeto de sua vingança. "Ela é gorda e fica se fazendo de vítima. Quando ela passa por mim eu falo mal dela para os meninos ouvirem", conta um pouco envergonhada. Quando não há uma atitude de prevenção e combate ao bullying, o ambiente escolar torna-se totalmente contaminado. Todos os alunos são afetados negativamente, inclusive as testemunhas, causando ansiedade e medo. Alguns alunos até se tornam autores de bullying quando percebem que este comportamento agressivo não está trazendo nenhuma conseqüência para quem o pratica.
Soluções
Tânia Zagury crê que só com o apoio da família e das instituições de ensino o bullying pode acabar. "A família deve apoiar a escola e trabalhar a questão dos limites com segurança, afirmação ética dos filhos, a não-aceitação firme ao desrespeito aos mais velhos e mais fracos. A família deve reassumir o quanto antes o seu papel de formadora de cidadãos, abandonando a postura super protetora cega e a crença de que amar é aceitar toda e qualquer atitude dos filhos, satisfazer todos os seus desejos, não criticar o que deva ser criticado e nunca responsabilizá-los por atitudes anti-sociais. Enquanto é tempo...", conclui Tânia.
Equipe Corpo Saudável
