É com grande orgulho que relato que, aproximadamente, há quarenta anos atrás eu me encontrava na condição de promover a primeira experiência de expansão da Associação dos Profissionais Liberais Universitários do Brasil - APLUB - fora do Rio Grande do Sul, e Luis Carlos Gayotto se encontrava na posição de dirigente da Associação Médica, em Santa Catarina, quando nos conhecemos.

Confesso que foi amor à primeira vista: senti logo intensa amizade e enorme admiração pelas incontáveis virtudes que este grande médico e amigo possuía.

Dali em diante tive a felicidade de acompanhar a saga triunfante e gloriosa de um vencedor: Inglaterra, São Paulo, Projeto Amazônia, Austrália, o mundo...

O destino nos uniu no pioneirismo do Crédito Educativo no Brasil e Projeto Amazônia, realizados entre a Unidade Experimental de Fígado da USP e a APLUB. Estes dois empreendimentos de educação e saúde são parte da marca de sua vida - deixando um legado para o benefício de centenas de milhares de brasileiros.

Evocando a figura humana, e falando apenas com o coração, devo ressaltar que o convívio de nossas famílias, as inúmeras viagens que realizamos juntos, e as nossas longas e preciosas conversas, sem reservas de espírito ou mente, nos fizeram aprofundar cada vez mais uma fraterna, leal e afetuosa amizade.

A sua alegria contagiante na hora do lazer, quando dançava, quando ia ao teatro, a concertos populares ou eruditos ou assistia aos mais variados esportes, quando aplaudia o talento e a habilidade dos homens, era conjugada com seu amor ao trabalho eficiente, dedicado, sério, honesto e científico, onde exercia uma liderança nata.

Encantava com sua cultura multi temática, como também enfrentava as adversidades com inteligência, saber, elegância, coragem moral e conduta irrepreensível.

A sua presença em qualquer ambiente era luminosa e espirituosa.

Muitas eram as suas qualidades e o devido reconhecimento que granjeou era tratado por ele com a humildade dos sábios.

Para concluir estas rápidas e coloridas pinceladas sobre a sua nobre personalidade e excepcional caráter, eu diria que "Deus nos dá um irmão que é um amigo, e eu tive a ventura de escolher um especial amigo para irmão".

Certamente, por tudo isso, ele sempre será lembrado como "o meu tipo inesquecível".

Ressaltamos, a seguir, os pontos marcantes de sua trajetória, pinçados dentre as belas homenagens que lhe foram recentemente prestadas por seus discípulos, colaboradores e amigos, nas Revistas do Hospital de Clínicas (GED, mar/abril/ 2004) e da Sociedade Brasileira de Hepatologia (SBH), agosto de 2004, dentre os quais, Hoel Sette Júnior, Silvano Raia, Victorino Spinelli, José Laurentys de Medeiros, Edna Strauss, Jorge A. Findor (Argentina), Hugo Tanno (Argentina), Eduardo Fenocchi (Uruguay), Mauricio Rocha e Silva, Waldir Pedrosa Amorim, Gabriela Coral, Ângelo Alves de Mattos, Paulo Gaudêncio.

  • Luiz Carlos da Costa Gayotto, nascido em São Paulo, 1933, formou-se médico pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), onde entrou aos 17 anos, tendo Silvano Raia como colega de turma, além de outros médicos ilustres.

  • Conheceu sua futura esposa, Maria Leonor, durante uma apresentação no teatro da Faculdade de Medicina. Casaram-se logo após a formatura e tiveram quatro filhos.

  • Transferiu-se para Florianópolis, onde foi convidado a participar da Disciplina de Patologia, na Universidade de Santa Catarina.

  • Expandiu seu campo de atuação para as Sociedades Médicas e, pela sua natural liderança, foi eleito Presidente da Associação Médica de Santa Catarina, tendo desenvolvido intenso trabalho em todo o Estado, incentivando os médicos a se unirem na solução dos problemas de classe. Todo esse valioso trabalho deu-lhe projeção estadual, tendo seu nome sugerido para ocupar o cargo de Secretário da Saúde do Estado.

  • Aos 40 anos de idade, transferiu-se com toda a família para a Inglaterra, Londres, onde fez especialização em Patologia Hepática com Peter Scheuer. Cativou os ingleses pela comunicação franca, inteligência criativa e dedicação ao trabalho , fazendo ali sua tese e conquistando o título de Philosophy Doctor (PhD).

  • Volta a estabelecer residência em São Paulo, 1976, contratado como Professor de Patologia pela Faculdade de Medicina da USP , dedicando-se nesta nova fase exclusivamente à Anatomia Patológica, em especial à Patologia Hepática. Trabalhando na Unidade de Fígado, aglutinou clínicos, cirurgiões e patologistas em torno de projetos de pesquisa.

  • Assume a chefia da Divisão de Anatomia Patológica (DAP), responsável pelo diagnóstico de peças cirúrgicas e biópsias procedentes de todo o complexo do Hospital de Clínicas, o que facilitou seu ideal de estreitar o diálogo clínico-patológico.

  • Como cidadão engajado na "construção da cidadania", preocupa-se com a educação e trabalha durante alguns anos com Crédito Educativo na APLUB (Associação dos Profissionais Universitários do Brasil), através da qual, em 1979, toma conhecimento de surto de hepatite viral e maior prevalência de tumores hepáticos na Amazônia. Em seguida, organiza uma expedição com médicos, enfermeira, e técnicos para coleta de sangue da população local, para avaliar marcadores de hepatites virais. Fez duas grandes expedições, tanto no Estado do Amazonas, como no Pará, incluindo a visita a uma tribo indígena, com coleta de sangue dos mesmos. Nessas ocasiões, a equipe médica também fazia o atendimento dos habitantes locais e Gayotto chega a operar de urgência uma criança, improvisando condições e salvando-lhe a vida.

  • Apresenta suas pesquisas, sobre a questão das hepatites virais, em Congressos e junto à Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), da qual foi conselheiro ad hoc, chamando atenção para o problema e incentivando a adoção de medidas preventivas, incluindo a nova vacina para a hepatite B.

  • Passa a fazer parte, juntamente com Figueredo Mendes e Hermann Schatzmayer da primeira Comissão Nacional de Hepatites, junto ao Ministério da Saúde, que teve influência marcante para o início da vacinação na Amazônia e, posteriormente, em todo o país.

  • Escolhido por seus pares como nome de consenso, torna-se o primeiro latino-americano a presidir a International Association for the Study of the Liver (IASL),tendo recebido merecidas homenagens durante esse período, notadamente na África do Sul e no Egito,  por seus esforços no sentido de viabilizar a reestruturação da Associação Africana para o Estudo do Fígado, como representante independente e única dos países desse continente, o que se concretizou.

  • Cria o Clube do Fígado, procurando congregar os hepatologistas de São Paulo. A partir dessa iniciativa, nasceria mais tarde a Associação Pauslista para o Estudo do Fígado (APEF), cuja liderança era nacional e voltado para a área da hepatologia hepática.

  • No início de 2000, dedica-se a um novo projeto: a edição de um Livro Didático sobre Doenças do Fígado e Vias Biliares.

  • O Professor Silvano Raia, seu colega e amigo, em sua homenagem, "Luiz Carlos Gayotto: Idealismo e Liderança",  lembra muito bem que "deve-se ressaltar que todas essas iniciativas e seus méritos se mostram menores quando comparados com os traços humanos e de caráter com que as exerceu. Era reto por essência, generoso por índole, despretensioso por constituição, superiormente inteligente por genética e, graças a todos esses atributos, exerceu marcante liderança sobre toda a nossa geração..."

 

 

 

Rolf Zelmanowicz
Médico / Empresário

 

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