Onde o Sexo Une o Céu e a Terra...

Eu sou a vida sexual que não é contrária aos princípios religiosos, ó Senhor dos Bhãratas (Bhagavad-Gîtâ ? cap. 7- Conhecimento Absoluto)

Cheguei em Khajuraho, na Índia, numa manhã saturada de calor úmido, quase insuportável. Lembro que um suor oleoso escorria pelo meu corpo, empapando a roupa. Cheguei no hotel, cujos prospectos haviam mencionado um ambiente confortável, com ar-condicionado.

Dei com o recepcionista Sikh debruçado sobre o balcão; parecia acometido de profunda letargia e levou tempo para decifrar minha reserva. Finalmente, acompanhou-me penosamente até o apartamento, localizado ao rés do solo. Quando abriu a porta, olhei e fiquei atônito. No meio do quarto de paredes caiadas havia uma cama de ferro e junto à janela uma mesa e uma cadeira muito toscas, ambas inseguras nas pernas. Por uma abertura vislumbrei o banheiro e, chegando mais perto do cubículo, deparei com um enxame de mosquitos grudados no cano aberto do chuveiro.

Perguntei pelo armário. Respondeu-me que já fora encomendado, mas que por enquanto eu poderia ocupar os dois pregos afixados na parede para pendurar minha roupa. E o ar-condicionado? ?Em reforma?, falou, ?mas estará pronto em breve?. "Bem", respondi com displicência aparente e, dissimulando meu mau humor, deixo as janelas abertas e aproveito a brisa reconfortante da noite. "Não aconselho", concluiu o homem, ?as cobras entram?. Lembrei logo que aquela zona era conhecida pelas najas, cuja picada é fatal em poucos minutos, após sofrimento insano. Fiquei sabendo, também, que Khajuraho era famosa como centro de estudos de najas, muito procurado por encantadores de serpentes que lá faziam sua iniciação. ?Não se preocupe?, respondi apavorado, ?deixarei as janelas fechadas?. Achei preferível assar naquele forno do que sentir as najas rastejando.

Após o banho, saí a visitar os templos e aproveitei a ocasião para acompanhar um grupo de antropologistas alemães, cujo guia revelou-se um excelente conhecedor dos aspectos histórico-culturais do lugar.

Dos oitenta e cinco templos famosos de Khajuraho, sobraram vinte, e todos eles dedicados pelos reis de Chandella Rajput aos deuses Shiva, Vishnu, Brahma e aos patriarcas Jains. Fascinaram-me pela beleza arquitetônica notável os templos de Kandariya-Mahadeva e Parsvanath.

O Kandariya é esculturalmente o mais impressionante dos templos de Khajuraho e foi construído por Vidyadhara (AD 1017-29), o último rei poderoso da dinastia dos Chandellas.

O tempo representa Meru, a Montanha do Mundo, unindo o céu e a terra, união esta enfatizada pelas esculturas luxuriantes de inúmeras Mithnas, casais em abraço amoroso. À semelhança do Sagarmatha, a Montanha Sagrada (frontispício do céu para os Hindus - já que eles ignoram com desdém o nome do Monte Everest), assim também os pináculos do templo são resultantes de espiras ornamentadas. A espira mais alta, Shikara, simboliza a suprema vontade de fusão com o infinito. As paredes do templo de Kandariya são profusamente decoradas por painéis esculturados eróticos. O Painel central do templo apresenta como tema um conjunto de cenas sexuais desinibidas. Mostra casais ou grupos nas mais completas e elaboradas posições de cópula. A extática expressão dos amantes parece transfigurar a rigidez da pedra em movimento de harmonia e de equilíbrio. Simboliza a ventura suprema, resultante da fusão dos princípios masculinos e femininos com o universo. (Outra referência sobre o coito cósmico do céu com a terra encontra-se no Rig Veda , o livro das sagradas escrituras hindus). O curioso é que as figuras eróticas apresentam-se invariavelmente em postura ereta, fundindo-se com a própria arquitetura do templo, em espiral ascendente. Simbolizam o esforço para, juntas, alcançarem o ABSOLUTO.

O templo de Parsvanath , que mencionei acima, é lindo, um exemplo magnífico da arquitetura Jains, onde se pode acompanhar a transição da forma circular dos santuários budistas para o estilo torreado da Índia medieval.

Os templos de Khajuraho são classificados em dois grupos, de acordo com o tratamento dado aos temas eróticos.

Nos templos do primeiro grupo (Lakshmana, Parsvanath e Kandariya-Mahadeva), as cenas eróticas aparecem, não somente nas paredes externas, mas também nos recessos do templo, mesmo no interior mais protegido do santcum. Vêem-se inúmeras representações de cópula em pé ou na qual a mulher exerce um papel dominante nas paredes do templo de Lakshmana as esculturas representam cenas explosivas de orgias de sexo grupal. Em uma destas cenas, aparecem três pessoas manipulando algo que sugere plantas num vaso, provavelmente um afrodisíaco.

Os templos do segundo grupo (Duladeo, Javari) mostram cenas de sexo oral executadas por mulheres com ascetas.

Os templos do primeiro grupo foram construídos em tempos prósperos dos Chandellas e mostram o sexo em suas variantes múltiplas e infinitas, lembrando o Kamasutra. Já nos templos do segundo grupo, as esculturas eróticas são parcimoniosas, quando não totalmente ausentes, como no templo de Adinath. Nestes, os temas escolhidos reproduzem animais mitológicos, unindo corpos de animais e cabeças de homens ou pessoas.

Experiência insólita ocorreu no templo de Chaturbhuja, quando me defrontei com a impressionante escultura de Shiva , como andrógeno, onde a metade direita do corpo aparece tipicamente como masculina, em tons mais claros, com uma clava nas mão; e a metade esquerda, a feminina, mostra uma mama bem desenvolvida e um penteado de configuração feminina. Fiquei pensando na intuição incrível daquela civilização soberba, extinta há muitos séculos, e que já pressentia a ambivalência dos "dois em um", um fenômeno redescoberto pelas ciências biológicas deste século. Nihil novum...

À noite, fomos assistir no terraço do templo de Kandariya a um espetáculo de dança executado pelo Corpo de Balé de Nova Delhi, em homenagem a Shiva, cujas festas iniciavam naqueles dias. Foi ao ar livre e a lua era forte. Uma noite que nunca se apagou da minha mente. lembro das bailarinas, com seus preciosos ornamentos de outro e prata. Cantavam e dançavam ao som de tamburas e vinas, dedilhadas com fervor pelos músicos, executando o Raga. Dos gestos graciosos que interpretavam as metamorfoses de Shiva, emanava puro encanto e magia. Por um instante, pareceu-me estar participando, naquele momento e lugar, de um ritual fantástico, ocorrido há mil anos. Terminadas as danças, continuei a vagar, na noite clara, por entre os templos. Refletindo, percebi que em Khajuraho a religião e o sexo, o sublime e o sensual estavam em justaposição indissolúvel.

Os templos sagrados com seus insuperáveis relevos e poderosa estatuária, evocavam a passagem por Madhya Pradesh de uma civilização forte e viril, como a dos Chandellas.

Caminhei até o amanhecer. Não sentia vontade de dormir, e logo segui para Benares...


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