Quando procurei Nefertiti da última vez, desdenhei desde logo os outros objetos da excelente coleção do Museu Egípcio de Berlim (Staalitche Museum). Rumei diretamente à sala onde se encontra, solitário, em destaque no meio da ampla sala, o busto de Nefertiti.

Fascinando com sua beleza a todos que se aproximam, e soberana em seu isolamento, encontra-se a escultura confinada por potentes paredes de vidro. Fica assegurada sua proteção contra o roubo, a destruição e contra o toque de mãos curiosas e profanas. Lembram a Pietà, de Michelangelo, mutilada por um cérebro doentio e desvairado?

O busto de Nefertiti é de calcário pintado, com retoques de gesso. O olho direito é de cristal de rocha incrustado; o olho esquerdo não existe, perdido talvez nos escombros da cidade de Amarna, onde foi achada.

As orelhas e a serpente real na testa foram quebradas. O pescoço, grácil e aristocrático, lembrando o perfil sinuoso da gazela, sustenta a cabeça dominante e policrômica da rainha. Neste maravilhoso portrait parece que foram abandonadas todas as convenções; até mesmo seus olhos são pintados num inovador estilo naturalista, sem nenhum daqueles antigos e curiosos ajustes de representação que persistiam desde os dias da primeira dinastia.

O fascínio radiante dessa persona sexual - conforme Camille Paglia - não consegue eco nas duplicações de sua imagem. Nunca encontrei uma única reprodução de Nefertiti, e já vi muitas, que fosse capaz de suscitar esta sensação peculiar que domina a gente ao fitar abismado o busto em display no museu.

Nefertiti usa uma coroa-peruca típica da XVIII dinastia do antigo Egito, e seu busto foi encontrado em 1912, na cidade de Tell el-Amarna. Data de cerca de 1363-1343 AC, durante o período do reinado de Akhenaton, seu esposo, que assumiu o trono em cerca de 1375 AC.

Nefertiti é obra de um gênio, cuja identidade se perdeu na confusão de uma épocas explosiva e trágica da história egípcia. O artista soberbo e sua obra imortal ficaram soterrados em Amarna por mais de 3.000 anos.

Mas, Nefertiti - que significa "a bela que veio de longe" - era somente bela?

Olhando com mais cuidado aquela cabeça que domina o conjunto, percebe-se que seus lábios, cheios e sensíveis, são entretanto firmes e cerrados, sugerindo uma vontade inflexível. Ela parece conduzir com o queixo. Sua força sedutora e seu olhar, que sonda uma distância infinita, atraem, mas não permitem intimidade recíproca, e não fazem concessões.

Parece certo que a importância de Nefertiti durante o reinado de Akhenaton ultrapassou a simples fama de sua beleza. Embora sejam poucos os dados históricos disponíveis, os indícios contudo sugerem que Nefertiti foi uma mulher de personalidade marcante, criativa e cheia de engenhosidade, que teve participação ativa nos eventos político-religiosos da XVIII Dinastia.

Relembrando, é preciso fixar-se no fato de que esta dinastia marcou o início do período mais brilhante do antigo Egito, um renascimento sem precedentes, o chamado Novo Império (1570-1085 AC). Entre seus governantes sobressaem os nomes de Hatsheput, Thutmose III, Akhenaton, Seti I e Ramsés II.

Igualmente, é preciso entender que no antigo Egito a figura político-religiosa central era o Faraó, que exercia sua autoridade máxima, inspirada no ensinamento e no poder dos deuses, dos quais se considerava um filho. O Faraó, em poucas palavras, era o Estado, a concentração do poder num só homem, um deus vivo. Foi o caso de Amenofis IV ou Amenothep IV, como era chamado no início de seu reinado, e que mais tarde mudou seu nome para Akhenaton. Este Faraó da XVIII dinastia, esposo de Nefertiti, desde cedo, empolgado por ideais revolucionários, assume como sacerdote supremo do novo deus-sol, Aton, e por ele instituído como uma divindade única e absoluta. O jovem Faraó deificava assim a luz do sol ou o seu calor vital como fonte de toda a vida. Bem cedo ficou claro para a casta dominante dos sacerdotes que Amenofis estava expulsando o antigo e tradicional deus Amon com todo o séquito de deuses subalternos. Criou-se assim, e isso é fantástico, a primeira religião monoteísta da civilização.

Como era de se esperar, um conflito virulento e implacável, entre os poderosos, sacerdotes politeístas e o Faraó de um deus único, tornou-se inevitável. Amenofis, radical, muda seu nome para Akhenaton - "benéfico para Aton" - e funda a nova cidade de Akhenaton (atual Tell el-Amarna, ao sul de Tebas). Tamanha revolução, violentando todas as tradições mais antigas e sagradas do Egito, deve ter sido uma experiência devastadora para o jovem soberano e sua esposa.

A importância de Nefertiti na vida político-religiosa se fez sentir desde cedo: Akhenaton construiu vários templos, dois deles dedicados a ela. Este foi um episódio inusitado para uma época na qual o poder político-religioso da mulher era praticamente inexistente. Em toda a história do Egito faraônico, que compreendeu 2.500 anos, apenas quatro mulheres reinaram com poderes absolutos de Faraó, em contraposição aos 123 Faraós homens. Foram elas: Nitokris, da 6ª dinastia; Sober-Nofru, da 12ª dinastia; Hapschepsut, regente de Thutmosis III, e depois rainha por vinte anos e Tawosret, regente de Siptaah, e que assumiu o poder após a morte do pequeno Faraó. Merece menção o fato de que as duas primeiras rainhas mencionados reinaram ambas em épocas tormentosas, quando o poder central ameaçava escapar.

Na proporção mencionada de Faraós homens e Faraós mulheres, fica claro que, no ápice da pirâmide social, o homen ocupava um lugar predominante, não existiam direitos iguais na sucessão de regência para príncipes e princesas da casa real. Enfim, uma sociedade machista por excelência, na qual as mulheres não formavam um grupo próprio e definido sob o ponto de vista sócio-econômico; aparecem juntas com pais, irmãos, marido e filhos e sem projeção social. Dependem do status do homem. O conceito "mulher", como figura social dominante, praticamente não existia. Neste clima, pois, patriarcal, o fato de o Faraó dedicar dois templos à Nefertiti, uma mulher, é algo extraordinário e jamais visto até então. É por essa razão que Ray Smith, arqueólogo da universidade da Pensilvânia, escreve dizendo que "a influência de Nefertiti sobre seu marido não encontra similar na História do Egito". A biotipologia fornece outra pista interessante para ressaltar o poder de Nefertiti sobre o Faraó: enquanto a sua estatueta sugere uma mulher de caráter forte e independente, a arte mostra Akhenaton como um homem de crânio disforme, corpo andrógino, músculos murchos e barriga estufada.

Akhenaton e Nefertiti foram os primeiros idealistas uma longa série de revoltosos contra a tradição e contra a aceitação cega do passado. Contudo é apenas Akhenaton que é citado na literatura como o 1º regente monoteísta da história, o primeiro profeta do internacionalismo e a figura mais proeminente do mundo antigo antes dos Hebreus. Seu monoteísmo foi genuíno e inovador e, talvez, por isso mesmo, suas reformas religiosas foram detestadas. A revolta da Akhenaton custou caro, e as tentativas de esmagar o poderoso sacerdócio fracassaram. Suas cidades, seus ideais, seus templos, Aton, todos foram arrasados e o culto de Amon com os seus deuses satélites foi restabelecido. O fim de Akhenaton e de Nefertiti ficou mergulhado em denso mistério e nada se sabe dos pormenores da sua morte. Simplesmente desaparecerem, após trajetória fulgurante que marcou importante período da história da civilização.

Alguns egiptólogos que estudaram o período de Amarna dizem que Akhenaton, cedendo às pressões dos sacerdotes, tentou recuar, e que foi Nefertiti quem resistiu, permanecendo até o fim, fiel aos ideais de Aton.

Mostrou que não era somente bela. Com sua extraordinária personalidade, ajudou a revolucionar o mundo há 3.000 anos.

Fico refletindo, ao olhar aquela imagem de suave e fascinante beleza, se não não foi ele, o genial escultor, talvez o primeiro Pigmalião da Mitologia...


Martim Graudenz
Ginecologista

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