No início do século XVIII, teria encalhado um navio inglês na ilhota Mata-Fome, em frente a atual Praia dos Ingleses. Os náufragos permaneceram por lá, vivendo da pesca e da agricultura. Há pouco registro histórico sobre o assunto. As causas seriam a distância de Nossa Senhora do Desterro (atualmente Florianópolis), as péssimas condições das estradas e o pouco interesse do povo em guardar a história .Sabe-se que existiam três engenhos de açúcar e vários engenhos de farinha, além da criação de gado e galinha.

Sem energia elétrica até 1967 e rodovias, que só foram construídas em 1973, a localidade Ingleses do Rio Vermelho era uma pacata vila.

Hoje é um importante ponto turístico, com vários hotéis e pousadas, um centrinho - como chamam a rua de comércio variado - e uma praia belíssima. A origem e a tradição açoriana, graças ao esforço de poucos, vem sendo mantida. Ela sobrevive na Festa do Divino, quando é comemorada a Pesca da Tainha e na festa de Nossa Senhora. dos Navegantes, padroeira local.

Outra fé, não religiosa, deve ser destacada: a de encontrar e contar a história perdida. É o fascínio dos achados arqueológicos na encosta sul da Praia dos Ingleses. A arqueologia subaquática está em plena atividade.

Como uma colcha de retalhos, aos poucos, vão surgindo fatos que sugerem o passado.

Um mergulhador encontrou, em 1989, uma jarra cerâmica, que os antropólogos chamam de saco plástico da antiguidade, pois era usado para transportar grãos, azeite, vinagre, óleo para as lamparinas, bebidas e projéteis de chumbo. Foi a pista para procurar uma embarcação afundada. As peças encontradas foram guardadas pelo mergulhador, pois a lei vigente - Lei Sarney, ou Lei dos Naufrágios - dizia que tudo que fosse achado no fundo do mar pertencia à União. O mergulhador teria de notificar a Marinha, e esta faria a remoção dos objetos.

Esta lei foi um incentivo ao saque, pois ninguém gastaria seu tempo e dinheiro para entregar, de mão beijada, jóias, moedas em ouro e outras antigüidades ao Governo.

Antes de 1980, as empresas de salvatagem exploravam os navios naufragados com lucro certo, pois 80% dos achados ficava com a empresa e 20% com a Marinha, tendo esta o privilégio de escolha .Como o órgão governamental, só tinha interesse pelo material náutico, as outras peças ficavam com os exploradores autorizados.

O presidente Fernando Henrique Cardoso assinou em dezembro de 2000, uma alteração na lei, regulamentando as pesquisas de navios afundados, com previsão de algum retorno aos investidores. Esta medida veio á calhar ao mergulhador que mantinha as peças guardadas.

Hoje ele participa, com outros pesquisadores, do sítio arqueológico, com total autorização da Marinha.

A princípio, pensaram que fosse uma nave fenícia. Mas, as peças encontradas começam a contar a sua estória na História do Brasil. Revelam o que se passou, e deixam lugar para os escritores preencherem as lacunas com romance e aventura.

Mais de 400 ítens já foram identificados. Destacam-se os objetos de cerâmica, fabricados em Sevilha, entre os anos de 1560 e 1640, uma régua de madeira, com inscrição de 1683, que é a escala de Günter, precursora da régua de cálculo, uma caixa metálica, com uma águia bicéfala impressa e vários ossos humanos.

Somente por estes materiais, dá para saber que se trata de uma embarcação espanhola, pois a águia bicéfala era usada nas armas de Espanha, entre 1500 e 1700. A rota foi indicada pelo relógio de sol, cujas coordenadas apontavam para as Ilhas Canárias ao norte e o Rio da Prata ao sul. Os ossos eram de pessoas entre 16 e 20 anos, idade comum dos marujos, na época.

As pesquisas, além de caras, por exigirem testes científicos, demandam paciência e abnegação. O barco está enterrado a uma profundidade de dois metros, e situado a uns cinqüenta metros da praia. Os mergulhadores usam uma espécie de aspirador de areia para facilitar a busca. Mas, quando vem a maré, a areia encobre tudo novamente. Todo o material é limpo, para ser analisado e catalogado.

A área de pesquisa é dividida em quadrículos, sinalizada por bóias, num espaço demarcado de 1.600 m2. Cada dia o "quebra-cabeça" fica mais fascinante.

Já existe um pequeno museu em frente a estas pesquisas subaquáticas. Está previsto um museu oceanográfico, uma escola superior de arqueologia, um banco de dados sobre naufrágios e programas sociais e culturais.

Uma ONG administra e supervisiona o projeto.

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