Mais companheiro e menos provedor
Nos primórdios da humanidade, o homem era responsável pela caça, por demonstrar uma força maior do que a mulher que deveria tomar conta do lar. Eles eram responsáveis pelo sustento e pela manutenção da família, seu espaço era o público onde atualizavam sua masculinidade e seu valor estava ligado ao trabalho. A casa e os cuidados com os filhos era incumbência feminina. Os valores dos homens e das mulheres estavam bem definidos e diretamente relacionados ao desempenho dos seus papéis familiares.
Quando ainda não se relacionava sexo com procriação, o homem nem cogitava sua participação no nascimento de uma criança. Ainda assim, não há sinais de que a sua posição fosse de subordinação. Porém, com a saída do matriarcado de cena, a humanidade passou a ter outros padrões morais, o patriarcal, onde o sêmen era figura central, criador do céu e da Terra, razão pela qual a mulher deveria ser grata e secundária.
Com a Revolução Industrial imprimiu-se as primeiras grandes transformações no comportamento social. Caracterizada pela evolução tecnológica, a sociedade até então agrária, dividiu-se socialmente pelo trabalho, revelando um espantoso aumento da produção e do consumo. Iniciada na Inglaterra, na segunda metade do século XVIII, caracterizou-se pela substituição das ferramentas pelas máquinas e da energia do homem pelo vapor radicalizando o processo de produção que passou a exigir, cada vez menos, das habilidades ditas masculinidade.
O produtor antes independente torna-se operário e surge daí as primeiras idéias de capitalismo. A industrialização transformou a virilidade masculina no sucesso simbolizado pelo dinheiro. As mulheres conquistaram o espaço público, pois trabalhar fora deixou de ser uma opção para se tornar uma necessidade onde os padrões de felicidade a ser conquistada estavam relacionados ao poder de compra de bens de consumo. Assim o avanço tecnológico afetou as relações afetivas provocando grandes e profundas transformações já que o acumulo dos bens de uso individual mais isolaram do que proporcionaram intimidade.
Foi desta forma que homens e mulheres foram se aproximando em suas características mesmo que ainda hoje ainda seja possível encontrar exemplos de uma educação baseada em estereótipos. Muitos homens aprenderam ainda crianças, que não devem expor suas emoções: é preciso escondê-las pra manter o controle. O condicionamento social reforça tal comportamento quando ensina a ‘ser homem’, a fazer cara de mal. Assim, eles se escondem num ‘falso’ papel de macho e se responsabilizam por toda a carga que tal palavra traz em si, como um fim e um meio de atualizarem e corresponderem o que a sociedade espera deles. Ficou instituído que para ser homem é preciso rejeitar uma parte de si: o desejo de ser cuidado.
Revelam-se auto-suficientes para sentirem-se mais fortes e poderosos.
Mas felizmente nem todos estão assim e muitos querem ter o direito de conviver com suas emoções. Tirando toda a confusão que os sentimentos mistos que advêm desse novo papel de menos herói e mais humano a ser desempenhado pelo novo homem, ele sonha ser amado, tranqüilizado e acalentado. Com a Revolução Feminista, ele não precisa se mostra tão forte e nem esconder as suas inseguranças. Mais sincero e flexível ele divide a responsabilidade e estabilidade com a mulher.
Talvez seja errado rotular o que é masculino, o que é ser homem.
Todos nós temos características masculinas e femininas. Claro que sempre houve um arranjo responsável pelas possibilidades e habilidades a serem determinadas geneticamente quando através do social, daquilo que nos é imposto, somos moldados a seguir certos padrões e valores, desenvolvendo características próprias de cada sexo, onde o masculino complementa o feminino e, vice e versa. Mas a questão de gênero não é só social. Pode-se perceber que ela também é cultural e familiar, ou seja, um discurso de muitas vozes.
Fato é que o homem não será menos masculino se assumir sua vontade de ser acolhido, acalentado, de mostrar seus sentimentos assim como, no mesmo passo, a mulher não será diminuída se mostrar as outras facetas que possui. Por isso homens – e mulheres - devem ser encarados como possibilidades, seres diferentes, mas de maneiras iguais. É preciso perceber que conceitos de feminino e masculino são prejudiciais na medida em que despontencializam as pessoas.
Hoje se espera que o homem seja mais companheiro – em todos os sentidos que tal palavra implica – e não mais provedor. Se antes, eles tinham um papel definido assim como as melhores roupas e educação, pois seria um ‘desperdício’ fazer isso com as mulheres, vista como uma espécie de mercadoria a ser trocada já que quem pertencia à família era o homem, o herdeiro, com a emancipação feminina, ele se sente um pouco amedrontado com o espaço e o poder de voz que a mulher está conquistando e tenta se reposicionar social, profissional e afetivamente. Percebe-se um pouco confuso na execução de todos os papéis que se espera dele. Estão um pouco perdidos, sem saber que rumo tomar, sem achar um meio termo com medo de se sentirem fragilizados e fracos perante os demais. Muitas vezes, acabam oscilando entre um pólo e outro porque não conseguiram redefinir o seu lugar na relação desse século.
Ainda em nossa sociedade muitas vezes, machista, a figura masculina é vista como um ser onipotente e todo poderoso, alguém com mais valor e que não precisa ser ajudado, pronto para cumprir, sem receio e sem erros, todos os papeis que são exigidos.
Homens podem ser protetores e necessitarem de proteção, provedores e providos, durões e sensíveis.
Temos várias facetas a serem desenvolvidas.
O certo é que podemos e devemos independentemente do sexo, sermos amáveis, competentes e felizes.
Ana Paula Veiga
Psicóloga e sexóloga
Referências Bibliográficas:
CUSCHINIR, L. Homens sem máscaras: Paixões e segredos dos homens. Rio de Janeiro: Campus, 2002.
Lins, Regina Navarro. A cama na varanda. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.
VELHO, G. Individualismo e cultura. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
WEIL, P. O fim da guerra dos sexos. Brasília: Letretiva, 2002.
ZOMIGNANI, Maurício de Araújo. Viva a diferença. Viver Psicologia, São Paulo, Ano XI, n. 121.
