Você já reparou nos comerciais de absorventes? Num deles o narrador, em off, diz mais ou menos assim: ?tudo andava bem até que, de repente, você sente que está perdendo o controle? (e a imagem mostra uma bolinha numa espécie de montanha russa). Aí que você vê que é comercial de absorvente, e identifica ?perder o controle? com ?ficar menstruada?. Outros insinuam que você deixaria de ir a alguns lugares se não fosse por eles (os absorventes).
Sinceramente, não tenho nada contra os absorventes modernos, aliás, acho que o absorvente com abas foi uma das mais felizes invenções do século passado - melhor que isso só se produzíssemos um absorvente ecologicamente correto! É, eu vivi a época do absorvente sem abas. E a minha mãe viveu o tempo dos "paninhos"!!!
Falar sobre menstruação ? de certa forma, promover uma reconciliação com ela ? me parece importante e necessário. Sobretudo pelo fato de que pouco se fala sobre o assunto. Trata-se de algo embaraçoso e não muito simpático ou agradável de experimentar e mencionar.
Em geral, enfatiza-se o que o período menstrual traz de desconforto, desvantagem, sendo visto como algo desagradável, desanimador, desmancha-prazeres (você pode olhar o dicionário e achar mais várias palavras com o prefixo ?des? que se apliquem ao caso). Você já viu em algum lugar alguém dizer o que a menstruação tem de vantajoso? Seja sincera! É de fato raro.
Do ponto de vista médico, há um livro interessante sobre A Inteligência Hormonal da Mulher, de Eliezer Berenstein. Ele nos ensina, através de explicações baseadas na fisiologia, como tirar proveito do ciclo menstrual (contudo, um homem jamais terá uma perspectiva fenomenológica ? vivida - da menstruação). Há aqueles, entretanto, como o médico baiano Elsimar Coutinho, que propõem que a mulher simplesmente não menstrue, que tome hormônios ininterruptamente para não menstruar. Se a menstruação incomoda, basta bani-la!
Se a leitora é mulher, procure se lembrar das sensações e associações que faz com a menstruação. Como você lida com o fato de sangrar? Sente-se à vontade? O modo como lidamos com a nossa menstruação ? e eu diria com nosso corpo de maneira geral ? é, muitas vezes, uma herança que recebemos de nossas mães (e avós, e parte de nossa ancestralidade). Ouvi mulheres de cerca de sessenta anos contarem histórias surpreendentes sobre suas menarcas. Muitas mulheres dessa geração tiveram mães que simplesmente não falavam a respeito de nenhum assunto relativo ao corpo ? muito menos sobre menstruação ou sexo. Uma mulher disse que quando menstruou pela primeira vez, achou que havia se machucado andando de bicicleta. Ouvi mulheres que, a partir do fato de menstruarem, não puderam mais sentar no colo de seus pais ou avôs. Uma outra conta que a irmã surgiu em prantos, pois achou que uma lagartixa a havia mordido enquanto ia ao banheiro... Cômico? Eu diria que é trágico! Como um evento tão importante pode ser encarado dessa forma? Sem um esclarecimento, sem palavras de conforto, sem uma ponta de júbilo...
Com a educação formal, mesclamos o modo como nossas mães nos ensinam a lidar com a menstruação e o que aprendemos na escola sobre biologia. Este é um dado cultural: hoje em dia nossa relação com os fatos do corpo é sempre permeada pelo discurso da ciência, da fisiologia. O que significa menstruar? Significa que um óvulo não foi fecundado e é eliminado. Ponto.
O que significa para nós, mulheres, experimentarmos estar menstruadas? Somos seres que buscam sentido para nossas experiências. Podemos vislumbrar no alvorecer da espécie humana esta busca de sentido, a produção de símbolos evidentes no surgimento da linguagem e da arte. O diferencial simbólico da espécie humana foi uma das prováveis razões pelas quais fomos bem sucedidos, enquanto outros hominídeos se extinguiram.
Tratar a menstruação como um fator puramente biológico é negligenciar esta necessidade de atribuir sentido à nossa experiência. Ignorar os aspectos simbólicos da menstruação é uma exceção na história da humanidade.
Muitas culturas antigas e sociedades tribais consideraram a primeira menstruação como um evento de grande importância. Na Grécia Antiga, havia as Tesmoforias, que eram celebrações realizadas pelas mulheres que estavam em seu período menstrual.
Para muitos povos, a menstruação era uma espécie de tabu e o sangue menstrual um elemento impuro. Entre os Maoris, na Nova Zelândia, o sangue menstrual tem o status de ?uma pessoa morta que nunca viveu?, como nos conta a antropóloga Mary Douglas. Em alguns contextos, é perigoso para o homem manter relações sexuais com uma mulher menstruada. O sangue menstrual pode ser visto como venenoso e tóxico, a mulher menstruada não devia tocar em flores, nem preparar determinados alimentos. Em muitos casos a mulher menstruada é temporariamente afastada em locais especiais e não pode trabalhar, além de se alimentar com uma dieta especial. A medicina tradicional chinesa, assim como a tradição judaica, recomenda o repouso durante os primeiros dias da menstruação.
Em outros contextos, como em alguns povos nativos americanos, o sangue menstrual é fonte de poder, fluido mágico, mistério da força vital. Para os pigmeus do Congo, na África, a primeira menstruação é celebrada como uma benção, uma dádiva.
Então, por que ninguém fala das vantagens, dos benefícios de menstruar? A resposta reside em fatores históricos e culturais. A menstruação era, em tempos passados, objeto de rituais sagrados à Grande Deusa, relacionava-se com a terra e com os mistérios sobre os ciclos de vida e morte. A menstruação é uma pequena morte, que atualmente é vivida apenas como um incômodo. Esta perspectiva foi suplantada pelo ponto de vista patriarcal, transformada de fonte de poder ? relacionada à capacidade de gerar, de dar vida ? em motivo de vergonha.
Fiquei contente em encontrar num livro popular do tipo ?como criar meninas?, a sugestão para que a primeira menstruação seja marcada como um evento especial, com um presente, uma pequena comemoração. Cabe a nós, mães de filhas mulheres, re-criarmos alguma espécie de celebração para esse evento tão especial para uma menina, já que não temos mais esse suporte na cultura, no coletivo, como têm as sociedades do passado ou as tribais. É nossa responsabilidade modificar a forma como a menstruação é encarada, ressignificá-la e atribuir-lhe valor simbólico positivo, relativo ao mistério e dádiva de ser mulher.
Durante o período menstrual, muitas mulheres sentem-se em contato consigo mesmas, desejam estar sós, ficam extremamente sensíveis. Por que não se entregar a essas sensações? Viver este momento como um convite para mergulhar em si mesma, ouvir-se, compreender-se. Em vez de lamentar, por que não começar um diário e registrar suas sensações e pensamentos? Repousar e repor as energias perdidas? Dormir e depois anotar seus sonhos? Pegar um bom filme e assisti-lo em casa? Contemplar uma bela paisagem? Bordar, pintar, realizar um trabalho artístico? Você pode vivenciar uma grande efervescência artística e criativa nesses momentos e produzir coisas lindas!
Num de meus ciclos fiz uma pequena pintura na qual uma mulher aparece com um manto escuro, numa espécie de labirinto, também muito escuro. Ela traz uma lâmpada na mão, que ilumina a frente e vemos que há, em seu caminho, um rastro de sangue. Chamei a pintura de ?Menstruação como guia para o labirinto interior?.
Se nos dermos a oportunidade de, a cada menstruação, empreender uma jornada a esse labirinto interior onde residem nossos aspectos mais ricos e profundos, temos muito a ganhar, sintonizando-nos com o nosso corpo e seus ritmos, conhecendo-nos melhor, entrando em contato com o que é único em nós, promovendo um sentimento extraordinário de plenitude.
Luana Wedekin
