Mariana é uma mulher de 25 anos que apresenta, frequentemente, episódios em que ingere uma grande quantidade de alimentos de maneira compulsiva, mesmo sem estar com fome. Nessas situações, há uma perda de controle sobre a ingesta alimentar, que pode vir seguida por um forte sentimento de culpa e vergonha. Às vezes, chega a comer escondido devido ao constrangimento que sente quando isso ocorre na presença de outras pessoas. Apresenta oscilações de peso conforme são os períodos de agudização dos sintomas, sendo frequentes e comumente frustradas as inúmeras dietas. Diferentemente das pessoas que sofrem de bulimia, Mariana não tem por hábito se utilizar dos métodos compensatórios como o uso de laxantes, vômitos e exercícios em demasia. Esse padrão irregular de comportamento alimentar acaba por lhe acentuar tanto sintomas depressivos quanto ansiosos.
Todos os sinais e sintomas descritos acima fazem parte de um transtorno psiquiátrico, o Binge Alimentar ou Transtorno do Comer Compulsivo. Tal transtorno afeta principalmente mulheres, na faixa etária de 20 a 30 anos, frequentemente obesas, com um histórico de variação de peso e que comumente se utilizam da comida para aliviar sintomas psicológicos.
O transtorno do comer compulsivo é encontrado em cerca de 2% da população, em geral, e pesquisas demonstram que 30% das pessoas que procuram tratamento para obesidade ou para perda de peso são portadoras de transtorno do comer compulsivo.
As complicações médicas são comuns e estão relacionadas, diretamente, com o aumento da ingesta calórica e suas repercussões. As principais são a obesidade e as suas consequências, como pressão alta, colesterol elevado, diabetes, maior risco de infarto e derrame, além de complicações cardíacas e problemas osteomusculares.
As causas desse transtorno são desconhecidas. O transtorno do comer compulsivo desenvolve-se a partir da interação de diversos fatores predisponentes biológicos, familiares, socioculturais e individuais. Em torno de 50% das pessoas têm uma história de depressão. Se a depressão é causa ou efeito do transtorno, ainda não está bem claro. Muitas pessoas relatam que a raiva, a tristeza, o tédio, a ansiedade e outros sentimentos negativos podem desencadear os episódios de comer exageradamente. Embora não esteja claro o papel das dietas nesses quadros, sabe-se que, em muitos casos, os regimes excessivamente restritivos podem piorar o transtorno.
O seu tratamento exige uma abordagem multidisciplinar que inclui um psiquiatra, um endocrinologista, uma nutricionista e um psicólogo. O objetivo do tratamento é o controle dos episódios de comer compulsivo através de técnicas cognitivo-comportamentais e de um acompanhamento nutricional para restabelecer um hábito alimentar mais saudável. A psicoterapia dinâmica ou a interpessoal podem ajudar o paciente a lidar com questões emocionais subjacentes. O acompanhamento clínico faz-se necessário pelos riscos clínicos da obesidade. As medicações antidepressivas têm se mostrado eficazes para diminuir os episódios de compulsão alimentar e os sintomas depressivos.
Dra. ANA LUIZA GALVÃO
Psiquiatra
com colaboração
Dra. Dayane Diomário da Rosa
Dra. Alice Sibile Koch
