Reflexões de Um Ginecologista

Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.

(Lavoisier)

Em minha vida de médico, ouvi muitas histórias curiosas e esta é uma delas. Por razões óbvias, mudei o nome da pessoa envolvida.

Dona Emilia fora sempre uma mulher de hábitos discretos e respeitadora de Deus. Ultimamente, contudo, dedicava-se à religião com inusitado fervor. Tornou-se devota de Santo Expedito, o santo das causas perdidas.

Contou-me que agradecia as dádivas recebidas e terminava a prece, rogando esperançosa pelas graças de um milagre: que seu marido voltasse novamente - acrescentou agora a sottovoce - a ficar de "pau duro"!

Suas rezas foram atendidas e a alegria voltou a enfeitar o seu lar. A boa nova espalhou-se entre suas amigas e o que se viu chegou a surpreender o funcionário de um conhecido cartório do bairro. Para ele, por um inexplicável mistério, esvaziaram-se, em poucos dias, os blocos com os folhetos de Santo Expedito, blocos esses que, por cortesia, ficavam à disposição dos clientes, em cima de um balcão de atendimento.

Aliás, em Porto Alegre, como em outras cidades, é comum a distribuição de folhetos com a imagem de Santo Expedito, em lugares públicos. Numa das faces do folheto vê-se a imagem do Santo e no reverso uma oração.

Notícias das amigas de Dona Emília não as tive, pois nada filtrou quanto ao efeito das suas preces.

A princípio, simplesmente achei graça desse incidente. Em seguida, porém, o singular episódio de Dona Emília e suas amigas me fez refletir.

Pelo retrovisor do tempo, encontrei-me novamente jovem e iniciando minha residência no Lying-in de Chicago. Corria o ano de 1952 e o mundo parecia ter entrado nos eixos após a terrível tormenta da Segunda Guerra Mundial. Os valores humanos pareciam assentados em novo e invejável equilíbrio; a experiência valera e a tranqüilidade parecia definitiva.

Nada mais enganoso. Grandes modificações viriam abalar essa mesmice ilusória. Um vendaval capaz de sacudir as bases culturais de uma civilização reacionária se avizinhava rápido e certeiro. Era a revolução cultural e sexual dos anos 60 que entrava em cena. Preceitos morais, éticos e religiosos seriam submetidos nesse turbilhão, a fogos cruzados. Futuras gerações iriam modelar o mundo, segundo uma nova imagem, chocante em sua essência.

Revolução sexual para mim, que iniciava a profissão naqueles tempos, evocava em minha lembrança apenas uma história hilária da literatura grega que eu lera. Nessa comédia, Lysístrata, de Aristófanes, as mulheres de Atenas e Esparta vencem uma disputa contra seus maridos, graças a uma ardilosa e bem conduzida greve sexual.

Esqueci, então, o assunto revolução sexual até que, nos anos quarenta e cinqüenta, despertei quando Kinsey lançou seus famosos relatórios. Estouraram como uma bomba. Os livros foram escritos por um renomado pesquisador, o qual, pela primeira vez, atentava abertamente contra um poderoso tabu: a vida sexual dos americanos.

Assuntos até então considerados pouco polidos, tais como impotência, frigidez e ejaculação precoce, foram francamente expostos à mídia, mediante estudos e dados estatísticos confiáveis. Até então, problemas dessa natureza ficavam confinados pelas fronteiras invioláveis dos consultórios. Agora estavam lá, sendo dissecados publicamente, como matéria diária de uma mídia ávida de sensacionalismo. Nessa ocasião, senti pela primeira vez que a irmandade masculina era vulnerável.

Pouco mais tarde, seguiu-se a decantada rebelião dos jovens nos anos 60, contra o estabelecimento acadêmico, literário e social, marcando época, e alterando os rumos da história.

Na mesma época, aparece a pílula anticoncepcional, um marco decisivo da civilização nuclear. A mulher assume o controle da natalidade. Até então, sexo e reprodução mantinham uma estreita relação. Com o advento de anticoncepcionais confiáveis tornou-se possível uma total separação dos dois. Criava-se, destarte, um novo condicionamento na vida dos sexos e o mundo dos costumes, mais uma vez, mudava radicalmente suas feições. O macho, agora ameaçado em sua hegemonia, começa a mover-se em campo minado e a mulher liberta, liderava um novo código moral. Ela não perdera apenas o medo da gravidez, como também tornara-se exigente em questão de sexo. Caso fosse indicado, assumia a iniciativa dos folguedos amorosos. O varão, não atento para esse novo tipo de assédio sexual, mostrou-se combalido e o trauma logo se fez sentir. Os efeitos colaterais da pílula no homem começaram a surgir. Foi nessa época que li, nos anos setenta, um artigo no Lancet, cujo título prendeu a minha atenção: "Síndrome da Pílula Anticoncepcional no Homem". Relatava um psiquiatra que em seu consultório, após o aparecimento da pílula, começara a surgir um novo tipo de paciente masculino, acossado por um medo de sexo muito peculiar. Era o temor de que a companheira cobrasse sexo com maior freqüência e que reclamasse da falta de inovações. Mais preocupante, ainda, ela queria sentir orgasmo, múltiplo se possível, tudo de acordo com os artigos mais recentes da Elle. Não satisfeita, ela ameaçava com retaliações, o que lembra um pouco Lysístrata.

O paciente, no divã, sofria as agruras de uma situação inusitada. Acuado, sentia medo da cama. Recusava-se a ser um mero objeto sexual, manipulado por ninfomaníacas. Enfim, o novo homem, acossado e inseguro, batia em retirada. Iniciava-se uma nova era: a do homem como sexo silencioso.

Enquanto isso, eu assistia em meu consultório uma transformação radical nas últimas décadas, a partir dos anos 60. Mulheres de todas as faixas etárias discutiam, agora descontraidamente, seus problemas sexuais. Doenças sexualmente transmissíveis e sua prevenção, anticoncepcionais, hormônios, satisfação sexual, pautavam espontaneamente a relação médico-paciente. Mulheres atualizadas nos temas relevantes do momento abordavam as idéias feministas de Camille Paglia. Curiosas, faziam perguntas a respeito dos livros de Master & Johnson sobre incompetência sexual e seu tratamento. A globalização dos serviços de informação mostrou-se fundamental na disseminação desses novos perfis culturais.

A troca de informação começou a fazer-se rápida e, desde Gutenberg, nunca havia ocorrido uma explosão tão vertiginosa de comunicação.

Defrontando um novo tipo de parceria, o homem sentiu avizinhar-se uma poderosa e definitiva concorrência. Mas, seria possível imaginar o mundo no futuro governado pelas mulheres, algo como uma "fêmeocracia"? Os exemplos da antropologia cultural nos indicam que tal vislumbre é crível. É o caso dos índios Matis no Amazonas. O matriarcado dessa tribo, como forma de governo, é tão interessante que atraiu a curiosidade de Jacques Cousteau, que lá foi com sua equipe, a bordo do Calypso (1982), a fim de estudar aquela singular sociedade. Lá, quem governa é uma mulher. "O comando masculino assume importância em tempos de guerra, porém, é das mulheres o poder de decisão estratégica. Cada uma possui dois maridos e um terceiro companheiro, com os quais mantêm relações sexuais. Todos coabitam no mesmo tapiri, estando as redes de tucum dispostas espacialmente, de acordo com o status de cada membro da unidade familiar: a rede da mulher, no andar do meio, a de um marido acima, a de outro, abaixo, e a do companheiro, ao lado da rede da mulher. Os homens são monógamos."

Mas, voltemos para Dona Emília e suas amigas, que apelavam para Santo Expedito para ativar a pelve adormecida de seus maridos. Tudo fora civilizado e pacato com elas. Bem mais do que com Lorena Bobbit que, em 1993, ao cortar o pênis do marido no meio da noite, cometia o ato revolucionário definitivo do feminismo contemporâneo.

Como se as vicissitudes do homem não terminassem, a virilidade andou recebendo ultimamente mais dois golpes baixos em sua auto-estima. Refiro-me à descoberta do clone e ao amesquinhamento do cromossomo Y. A produção do clone dispensa o espermatozóide no processo da reprodução, enquanto o óvulo, para tanto, torna-se essencial. Em outras palavras, o homem seria, em tese, um ser dispensável na propagação da espécie. Ao mesmo tempo, recentes pesquisas no campo da genética conseguiram decifrar completamente o código do cromossomo Y. Os resultados mostram-se pouco animadores! O cromossomo Y encontra-se em processo de atrofia progressiva e já perdeu 2/3 de sua estrutura original nestes últimos 300 milhões de anos. Está com jeito de que o cromossomo Y seja o resultante de um cromossomo X que não deu certo, uma malformação, enfim.

"Uma das piores tragédias para o homem é o fato de ele nascer com um defeito incrustado", lamenta Bryan Sykes, geneticista da Universidade de Oxford, e que estuda o DNA de esqueletos pré-históricos.

Numa síntese pois, e com laivos de nostalgia, é preciso assumir que o homem parece fadado a desaparecer. Só resta saber quando. Mas, então, para quê servem os homens? Pensando bem, sem eles, elas terão dificuldades para encontrar alguém capaz de matar as baratas e aranhas a rastejar em suas alcovas. Por tudo isso, não consigo libertar-me de uma atroz suspeita a moer meu ego: a de que as mulheres estejam, desde já, aprontando suas vestes litúrgicas para o réquiem do macho. Ou não?


Dr. Martim Graudenz
Ginecologista Instituto de Patologia (Porto Alegre)

 

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