Você está nesse corpo? Bem, a pergunta pode soar um pouco estranha, à primeira vista, mas, sinta bem: você está em seu corpo? Qual é sua relação com ele? É algo que você habita? Você se identifica totalmente com ele? É algo estranho, que tem se modificado à revelia? Seios aumentando, pêlos crescendo em lugares indesejados, uma espécie de transformer de desenho japonês? Um mistério sendo decifrado aos poucos?
O que proponho é que você realmente reflita sobre sua relação com seu corpo. Em que medida você realmente vive em seu corpo ou apenas o utiliza (ou é dele "prisioneira")?
Lembrando de quando eu tinha treze anos (essa data é aproximada), acho que foi quando me dei conta que tinha um corpo... Para falar a verdade, me dei conta porque ele atraía olhares. Essa foi uma parte da descoberta, minha descoberta através do olhar do outro. O que havia no meu corpo que atraía o olhar? Ah, seios! Bumbum! Isso parece interessante! Tentando me recordar da situação, uma coisa ainda me é perfeitamente nítida: eu não vivia aquele corpo como totalmente meu. Deixe eu me explicar um pouco melhor, imagine um corpo e uma cabeça separados (é fácil de imaginar não é?). A cabeça olha o corpo, o corpo é (ele não pode ver, os olhos ficaram na outra parte). Partes tão separadas! Como se fossem duas existências, "dois em um" (acho que dois em dois mesmo).
Você pode pensar, não me sinto assim! Eu realmente vivo meu corpo, eu vou à academia, estou de olho nas celulites e controlo meu peso! Lamento, mas não é disso que estou falando. De alguma forma, esse é um corpo vivido pelo olhar do outro, vivido pelo olhar da cultura (que valoriza um modelo específico de corpo ideal). O corpo que aparece em todas as revistas (e as facílimas dicas para obtê-lo que faz parecer tão fácil e que você é um fracasso por não consegui-lo) não é, em absoluto, necessariamente, um corpo vivido. É claro que fazer qualquer tipo de exercício carrega fortemente a sensação física do corpo: a dor, o cansaço, os músculos tensos e relaxados, mas não é só isso.
Minha outra descoberta dos treze anos foi minha primeira menstruação. É claro que eu sabia do que se tratava, pois já era uma "visita" esperada. Mas, quando ocorreu eu não sabia bem o que dizer, então, saí do banheiro e disse para minha mãe: Mãe, aconteceu! Ora, minha mãe não sabia sobre o que eu estava falando, e eu não conseguia dizer claramente o que era! Eu não conseguia dizer, Mãe, fiquei menstruada! Talvez isso pareça meio antiquado para você (fazem 18 anos), mas a reação de minha mãe talvez lhe seja familiar: Ah, agora é essa chatice para o resto da vida!!! Talvez você tenha encarado naturalmente, sem grandes dramas. Pode ser que, na sua casa, sua mãe tenha ligado para a sua avó, madrinha e tias (e sempre que encontra uma amiga, ela diz que você já ficou "mocinha" que mico!). Mas lembre, como foi que sua mãe reagiu? O que ela lhe disse? Apresentou-lhe o absorvente, dizendo não coloque o adesivo para cima Explicou o que era o ciclo menstrual e disse que isso ia acontecer todos os meses nos próximos 50 anos? Abraçou você e disse que era maravilhoso virar mulher?
Há milhares de anos atrás a menstruação fazia parte de mistérios próprios da mulher e profundamente relacionados com os ciclos da terra. Nossa sociedade ocidental patriarcal (onde os homens têm, historicamente, mais poder que as mulheres) transformou o milagre, a dádiva do corpo pleno, em humilhação e pecado.
Então, como a menstruação é vivida por você? Algo nojento? Sujo? Um estorvo? Indiferente? Natural? Você repara como seu corpo muda durante o ciclo? Isso exige um pouco de disciplina! Você tem um diário ou agenda? Anote nele como se sente em cada época (antes, durante e depois da menstruação). Não adianta escrever simplesmente "TPM", escreva, com algum detalhe, como você se sente (isso inclui seu corpo).
Observe, ao final de um mês (um ciclo completo), como seu corpo foi vivido: em que momentos você se sentiu mais bonita? Em que momentos tudo a aborrecia? Os seios incharam? Quando foi que você chorou até em comercial? Quando ficou cheia de espinhas? Em qual período você sentiu mais vontade de estar sozinha. E, passado o mês, como foram os outros meses. Nunca é absolutamente igual... Anote os dias de mudança de lua e perceba como seu ciclo se relaciona com ela.
Perceba se não teve a impressão de, ao prestar mais atenção em seu corpo, você o sentir como mais seu. Se você aprender desde cedo a se observar com dedicação (nem precisa ser a mesma dedicação que você concede à academia ou ao seu programa de TV favorito, pode ser um pouco menos), talvez você sinta seu corpo como algo realmente seu: único, pleno, cheio de riquezas e mistérios.
Luana Wedekin
Mestrado em Antropologia Social pela UFSC Florianópolis
Arteterapia pelo Instituto Sedes Sapientiae São Paulo.
