Fatigue de rôle, descrita na literatura, pode ser traduzida como sendo a fadiga do papel desempenhado. Acomete de preferência os profissionais, cuja atividade é exercida sob apreciável stress. É o caso do médico, entre outros exemplos.

Quando a pressão é prolongada e contínua, pode levar a uma exaustão crônica, que progressivamente vai assumindo os ares de apatia, tédio e isolamento. O preço que alguns pagam é conhecido e faz parte das estatísticas da Organização Mundial da Saúde: suicídio, drogas e álcool.

No relacionamento dos sexos, a fatigue de rôle faz parte de uma síndrome que aprendi a reconhecer com relativa freqüência no consultório. Escutei durante anos as histórias de minhas pacientes e eventualmente aquelas de seus maridos. Conclui que a dita fadiga é comum, mas pouco comentada; as aparências continuam, como de costume, enganando.

O denominador comum desse flagelo é um tédio devastador. A libido desaparece e tudo é compulsoriamente atribuído a uma impotência, uma frigidez ou mesmo a um simples desinteresse dos parceiros pelo sexo.

Uma pergunta que me é feita freqüentemente nessas circunstâncias é para saber se tudo não é culpa dos hormônios; um desequilíbrio hormonal talvez...

Uma esperança ingênua pressupõe que tudo possa ser resolvido com a ingestão diária de uma pílula. Não sabem, não reconhecem e nem suspeitam de que a causa a ser pesquisada é a de uma vida exposta às agruras da monotonia, do tédio e da repetição ad nauseam. Fatigue de rôle, simplesmente.

Passo a relatar dois casos reais, que melhor ilustram o que estou narrando. Evito assim, por prudência, entrar numa discussão metafísica sobre o assunto, um emaranhado do qual sinto que não conseguiria sair facilmente.

o 1º caso é o de um amigo, casado com uma mulher atraente, alegre, extremamente simpática. Ele, o meu amigo, bem apessoado, inteligente e sem maiores problemas na vida. Ambos jovens e vitais.

Numa noite em que fomos jantar juntos, Adriano, vamos chamá-lo assim, abriu seu coração, apoiado generosamente por um Chivas, com pouco gelo. Confessou-me aborrecido, que não sentia mais prazer em fazer sexo com sua mulher. Perdera o tesão e não encontrava explicação plausível. Afinal, tudo ia bem: os filhos encaminhados e o dinheiro fluindo.

"Exemplifico", falou-me "por vezes, estou deitado na cama, cansado do trabalho, mergulhado na leitura de um bom livro, quando ela aparece, vestida com aquele execrável uniforme de trepar. É um certo baby doll de seda, cor pêssego, que ela bota sempre que resolve transar. Nesse momento, me assalta um desânimo atroz e já sinto que chegara minha hora. Até já lembrei Lorde Nelson, no momento decisivo da batalha de Trafalgar - aquela história da Inglaterra -, esperando que cada um cumpra o seu dever...Então vou à luta, mesmo porque, se não fosse, a noite seria longa e penosa; as recriminações virulentas não teriam fim e o amanhecer me encontraria com aquela sensação de ter sido vampirado".

À medida que Adriano soltava o verbo num desabafo surpreendente, me dei conta que aquele casamento estagnava no tédio: fatigue de rôle

O 2º caso é o de uma antiga paciente. Ao terminar a consulta, já junto à porta do meu gabinete, perguntei pelo marido. Apagou-se rápido o sorriso simpático que vinha iluminando seu rosto. Levantando os ombros num trejeito brusco, respondeu secamente: "ele?... como sempre, muito ranzinza e emburrado. Em sua companhia tudo é previsível e monótono. Uma chatice só".

Notando meu sobressalto com essa revelação inesperada, dissimulou sua amargura e concluiu com ar travesso: "Acho que a mulher deveria trocar de marido a cada dez anos. Depois disso, eles se repetem muito, perdem a graça e não querem sair de casa por nada". Parou um instante e arrematou dando um muxoxo, com os olhos brilhando de malícia: "Eu poderia ter tido uns três deles! Já pensou Dr. Graudenz? Mas agora é tarde". Lembrei Proust com o seu À Procura do Tempo Perdido. Senti que para minha amiga não havia mais tempo de recuperá-lo.

Outras mulheres, entretanto, eu as acompanhei, são aptas para criar uma nova realidade. Seguem com fervor um conselho shakespeariano que lembrei várias vezes na vida: "What is past is prologue". É verdade repetem elas, o passado é prólogo e o começo é agora!

Com essa coragem de refazer tudo, após remoção dos escombros, lembro ter deparado muitas vezes na minha profissão. Recordo pacientes, retornando para uma consulta, após ausência prolongada, nas quais eu percebia, num golpe de vista, já ao entrar no gabinete, algo diferente. Uma metamorfose transformara o todo daquela mulher. Uma dimensão oculta, até então desconhecida por mim, aflorava e ganhava um contorno forte e definitivo; rejuvenescida, desembaraçada, alegre, colorida e com um brilho intenso no olhar. Esta nova e intensa áurea de felicidade que envolve a paciente, eu aprendi a reconhecer no decorrer dos anos de consultório: vita nuova...

Desde logo, ficava sabendo a causa de tão surpreendente transformação: ele morrera ou simplesmente não mais existia em sua vida. Ela, livre, abre um novo capítulo de sua existência e sua meta agora é o trabalho, o estudo, viagens, a "curtição" do corpo e da mente, novas amizades e a abertura de novos espaços. Principalmente, uma grande vontade de ser feliz!

Enquanto aguardava a próxima paciente, continuei a refletir sobre os desencontros de muitos casamentos. A verdade é que numa infeliz freqüência, homens e mulheres se tolhem mutuamente, se neutralizam, se anulam e mergulham no círculo infernal do tedium vitae. Ambos marcados por uma fatigue de rôle não combatida. Por vezes, simplesmente por falta de diálogo.

É evidente que existem meios de superar essa fadiga letal. Para alguns, o tratamento seria o conservador: uma psicoterapia do casal, por exemplo. Outras vezes, a solução é radical, culminando na separação, que costuma ser sofrida pelo trauma que provoca. Enfim, como dizia meu sábio pai: "É melhor um fim com pânico do que um pânico sem fim". Ou não?


Dr. Martim Graudenz
Ginecologista Instituto de Patologia (Porto Alegre)

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