Algumas vezes se tornam visíveis; preferem entretanto sinalizar por telefone. Quando chegam no consultório, acompanhando a sua melhor metade, parecem um tanto contrafeitos, distantes e deslocados do seu habitat natural.
Ao telefone murmuram coisas vagas a respeito de doenças venéreas e externam seus temores quanto à AIDS. Com vozes coniventes, solicitam a minha compreensão e auxílio para que tudo se resolva bem, sem conturbações desnecessárias.
Os maridos de nossas pacientes! Um ínfimo sobre eles sabemos e, no entanto, quantas vezes são eles os responsáveis pelas alterações psicossomáticas que tentamos decifrar e corrigir. Quantas informações importantes a respeito deles nos escapam, algumas acabando no divã do analista.
É o caso de Clarisse, entre outras, minha paciente há dez anos. Advogada, abandonou a profissão, dedicando-se ao marido e duas filhas. Mulher de superlativos, é muito inteligente, extraordinariamente loquaz e sobremaneira descontraída no vocabulário. Quando apareceu no consultório, meses atrás, a mudança era visível. Apagada, quase taciturna, muito abatida.
Perguntei o que acontecera. Esperando essa oportunidade, ela saiu cascateando seu problema. Sérgio sofrera uma metamorfose neste último ano. Aos 46 anos, o marido, até então equilibrado, realizado como engenheiro de uma firma conceituada, carinhoso, cheio de amor e nobreza para com seus amigos, comunicativo, começara repentinamente a sofrer incrível mutação.
Sorumbático, irritadiço, fechado num mutismo impenetrável, sem gosto para o trabalho, menosprezando qualquer inovação como algo déjà vu, distante da mulher, sem paciência com os filhos, se debatendo à noite contra insônias intermináveis, dispersivo, bebendo muito mais, o homem foi desabando ligeiro. Hábitos de vestimenta não foram poupados. Elegante e sóbrio, passa a usar a moda jovem, com uma curiosa nonchalance de magrinho deslumbrado.
Quando interpelado pela mulher, cheia de pasmo, responde dizendo que na vida é imprescindível saber distinguir entre o essencial e o importante. Importante mesmo, dizia, era o essencial. Na verdade, identificar o essencial parecia ser agora o centro de suas obsessões.
À medida que Clarisse ia desfilando as características desta surpreendente mudança, minha mente articulava o diagnóstico. Era óbvio, gritante, um exemplo clássico de midlife crisis - a decantada revolução no meridiano da vida!
Ao responder para Clarisse, comecei lembrando Dante. O grande florentino, falei, ao iniciar o primeiro Canto do Inferno, nele imprimiu, desde logo, o estigma do seu gênio. Ele se permitiu, graças às dimensões de sua inspiração, desvendar, sem preâmbulos, o grande conflito de nosso tempo emocional. Por isso, nos dias que correm, mais do que nunca, nos sensibilizam aquelas palavras.
Nel mezzo del cammin di nostra vita
Mi ritrovai per una selva oscura
Che la diritta via era smarrita.
Aqui se encontram, continuei, projetadas as angústias deste homem que aos 40 anos, quando escreveu a obra, se encontrava no auge de uma feroz crise de identidade.
Passei depois a explicar para Clarisse a fantástica expressão dos alemães que, para uma situação idêntica, usam o termo Toresschlusspanik, o pânico que assalta homens e mulheres quando, ao "meio do caminho desta vida", vêem fechar aos poucos, mas implacavelmente, o grande pórtico que leva ao outro lado, ao vale verdejante das coisas boas da vida. Do apetite voraz de gozá-las ainda agora, enquanto possível, e não apenas quando tudo já passou. Terminei citando, em rápidas pinceladas, o contéudo de um best-seller, Predictable Crisis of Adult Life, uma maneira revolucionária de analisar a vida do adulto, escrito por essa fabulosa Gail Sheeny. Expliquei, enfim, porque Sheeny, referindo-se à década dos 40 anos, a chamava de deadline decade, a década decisiva.
Clarisse ouviu tudo, absorta em profunda concentração. Saiu dizendo que agora entendera tudo, e que ia tomar as providências mais acertadas.
Passaram-se os meses e Clarisse voltou ao consultório. Agora, outra vez alegre, efusiva, segura de si mesma, autêntica, enfim, a Clarisse de sempre. Em pensamento, esfreguei as mãos, contente, porque percebi, num relance, que aquela alma sensível, que era Sérgio, muito bem captara a minha mensagem através de Clarisse...
"Pelo visto", falei, "nossa técnica de psicologia aplicada não foi em vão e, agora, tudo está numa boa". "Tudo numa boa, sim", disse ela, "mas o papo empregado foi outro, menos sofisticado, mas também muito eficiente! Aconteceu que, um dia, cheia de tanta crise, e o homem não falando nunca, sempre calado e macambúzio, marquei um jantar com ele num restaurante. Procurei escapar assim de interferências inevitáveis. Diante da cara azeda e da tentativa inútil de fazer o "troglodita" articular uma fala, eu explodi dizendo: 'pois bem, Sérgio, daqui prá frente, o negócio vai ser diferente; enquanto tu não abrires a boca, eu não abro as pernas' "! "Meu Deus", pensei, "nova guerra do sexo, desde aquelas entre Esparta e Atenas"...
O choque das palavras, segundo ela, operou o milagre almejado. O homem, assustado, desencrespou e começou a falar uma barbaridade. Na sua loquacidade, criticou sem piedade seus erros, defeitos e frustrações. Fala num manancial até hoje e, desanuviado o seu espírito, parece recuperado. Satisfeito, trabalha com afinco, é amoroso com todos, descontraído e, acrescenta Clarisse num sorriso brejeiro, "trepando muito bem, obrigada. Enfim, bola prá frente"!
E eu? Já refeito da surpresa pelo desenlace peculiar deste caso, voltei à orbe terrestre, pensando nas fabulosas pacientes e seus maridos singulares.
Lembrei, não sei por quê, do título fascinante de um livro que vi exposto numa vitrine há muito tempo e que assim dizia: "Quarenta Mil Anos de Arte Moderna"...
Dr. Martim Graudenz
Ginecologista Instituto de Patologia (Porto Alegre)
