O telefonema do colega pegou-me de surpresa. Queria saber a minha opinião sobre quando encerrar as atividades no consultório, em outras palavras, quando deixar de trabalhar.
A princípio, uma pergunta singular para resolver um problema complexo, por telefone. Meu primeiro impulso foi o de responder sumariamente, dizendo que a solução da questão depende de fatores muito pessoais, à mercê, principalmente da saúde física, mental e econômica de cada um. Contudo, tratando-se de um colega muito amigo e sentindo em sua pergunta um tom de inconfundível interesse pessoal, combinei um encontro para trocarmos idéias. Depois que desliguei o telefone senti-me subitamente um refém de pensamentos que vieram sacudir minha tranqüilidade. Fatos e episódios que eu julgava sepultados pelo tempo, ressuscitaram com o vigor de um passado que aflorava intacto. Entre estas divagações, a que motivou o encerramento da minha clínica, foi tomando corpo. A despedida do meu consultório, na simplicidade de seu ritual efêmero ? um chá em companhia de meus auxiliares ? simbolizava o fim de uma atividade como ginecologista durante cinqüenta anos. Mas, quando fechar o consultório?
Teoricamente pelo menos, poder-se-ia estabelecer a idade de 65 anos como referência, já que esta é a marca fixada pela Organização Mundial de Saúde (O.M.S) como sendo o início da velhice. É claro tratar-se aqui de um conceito mais cultural do que biológico e por isso mesmo bastante flexível. A idéia que moveu a O.M.S. na escolha desta idade, é pragmática em sua essência. A lógica que a respalda é de que até os 65 anos, o espectro de atividades do homem já se tenha realizado: reprodução e educação dos filhos até sua maturação responsável, capacidade de trabalho e de aprendizado. Entretanto, é claro que, à medida que aumenta o índice de expectativa de vida ? nos países desenvolvidos já beira os 80 anos ? os conceitos serão reformulados num futuro próximo.
Outro fator, não desprezível e diretamente ligado à uma rápida mudança demográfica em curso, diz respeito às novas gerações. Estas vêm se impondo, com visível impacto em conseqüência da crescente pletora de profissionais liberais e os moços exercerão maior pressão sobre os veteranos, afim de conquistar os seus lugares. Uma aguerrida concorrência deverá forçar o abandono mais precoce dos postos de trabalho. Os alemães chamam este poderoso e agressivo movimento de Sturm und Drang (Tempestade e Ímpeto).
Enfim, quando foi que percebi que tinha chegado a minha hora de fechar o consultório? Foi quando comecei a sentir, entre outras razões, no meu trabalho, os sintomas cada vez mais freqüentes de impaciência, irritação e falta de elã. Subitamente, dei-me conta que era vítima de uma síndrome que os franceses chamam de fatigue de rôle, traduzível como fadiga do papel desempenhado. Era o sinal. Estava na hora de fazer as malas. Este tipo de fadiga-corrosão acomete de preferência aqueles profissionais, cuja atividade é exercida sob apreciável stress, como a do médico, exemplo clássico sob medida. Quando a pressão é contínua e prolongada, pode levar a uma exaustão crônica, que progressivamente vai assumindo ares de apatia, tédio, desinteresse e isolamento. O preço que alguns pagam é conhecido e faz parte das estatísticas da Organização Mundial de Saúde: suicídio, drogas e álcool. No Brasil, o Conselho Federal de Medicina está criando um serviço de apoio a seus associados dependentes de drogas. O modelo é inspirado num programa existente em São Paulo. Naquele Estado, já foram atendidos 180 médicos em três anos, mas nem todos os casos com um final feliz: só no ano de 2004, dois profissionais se suicidaram (O Sul, 30 janeiro, 2005). Os efeitos do desgaste sofrido pelo médico em seu trabalho, dificilmente encontra equivalente em outras profissões. Por esta razão, somente um homem como Tchekhov, famoso como escritor e médico de renome, uma feliz associação, foi capaz de transmitir com comovente calor humano o drama do médico. Tchekhov que morreu tuberculoso aos 44 anos de idade, trabalhou, atendendo seus pacientes até o fim. Em suas peças de teatro, descreve com paixão e talento as aflições do médico do interior. Em ?O Tio Vania?,* o dramaturgo em certa altura, assim descreve o diálogo do Dr. Astrov com Marina, a sua velha babá, uma narração fiel do Fatigue de Rôle:
?Astrov ? Mudei muito de lá para cá?
Marina ? Bastante. Você era tão jovem, bonito, e agora envelheceu. Nem sua beleza não é mais a mesma. E, verdade seja dita ? você bebe.
Astrov ? Sim ... Nestes dez anos virei outra pessoa. E sabe por quê? De tanto trabalhar, babá. Desde cedo até tarde da noite estou de pé, não conheço descanso e passo noite debaixo do cobertor com medo que me arranquem de lá para visitar um doente. Desde que nos conhecemos não tive um único dia de folga. Como é que eu não haveria de envelhecer? E, depois, a vida é mesmo enfadonha, idiota e suja. Ela nos engole vivos. Estamos cercados por um monte de excêntricos, um monte de gente estranha. Esse destino ? é inevitável.?
Ainda sobre Tchekhov. Em certo trecho da carta que ele escreve à um amigo, assim exprime um pensamento condimentado por deliciosa malícia: ?A medicina é minha esposa e a literatura é minha amante. Quando enfastiado de uma, passo a noite com a outra. Caso este arranjo não funcione, ele pelo menos não é monótono e jamais perco uma delas por infidelidade?.**
Uma segunda razão que acelerou meu processo de desligamento do consultório, deve-se à evocação de um episódio que me aconteceu como médico jovem, iniciando a clínica em Porto Alegre. Meu consultório ficava em frente ao de um colega, professor da Faculdade, que fora muito famoso anos atrás e gozava de uma clínica invejável. Logo passamos a fazer amizade, já que tínhamos algo em comum: ausência de clientes. Eu, porque iniciava minha profissão e ele porque a estava encerrando. Tínhamos muito tempo para conversar e atender os propagandistas. Tomávamos incontáveis cafezinhos, e eu ficava escutando o professor, a contar com ânimo exaltado ?casos célebres? de sua clínica.
Nestes momentos seus olhos adquiriam o fulgor da empolgação e era comovente assistir a sua transfiguração. Lembro também com nitidez o quadro pendurado na parede de sua sala de espera. Fascinava-me aquele kitsch danado, muito em moda naquela época. Representava o médico, a mulher e a morte. Em um canto, via-se o médico todo aparamentado, a puxar junto a si a paciente para salvá-la da morte. Esta aparece como um esqueleto ajoelhado, no outro canto do quadro; em uma mão segura a indefectível foice e com a outra tenta apossar-se da mulher, em transe cruel.
Com freqüência, pela porta entreaberta, eu espiava, para encontrar meu venerando amigo com os braços abandonados ao longo da poltrona, um olhar mortiço fixado ao longe. Um dia surpreendi-o com a cabeça deitada sobre os braços cruzados em cima da mesa. Era a imagem da solidão e do desespero de um homem derrotado. Esta cena nunca esqueci, ela me veio a mente na hora de tomar a decisão. Achei preferível abandonar a clínica, antes que esta me abandonasse.
Dr. Martim Graudenz
Ginecologista Instituto de Patologia (Porto Alegre)
