A compulsão sexual revela uma perda do controle da própria sexualidade. A pessoa se encontra refém dos seus instintos. Esquece-se significados de palavras como amor, respeito e cuidado.
Difícil falar sobre compulsão sexual sem questionar qual seria o padrão correto para expressar a sexualidade. É bom ressaltar que o correto sempre é muito relativo já que inclui aspectos sociais. A manifestação do desejo sexual sofre influência externa, vinda da cultura, educação recebida e crenças do que é certo e errado. Quando se trata de sexualidade o correto é aquela situação que não se impõe a nem um dos parceiros e a compulsão perda do controle. Assim, sexualidade saudável é aquela que não gera prejuízo para si ou para o outro.
O que caracteriza a compulsão é o alto nível de desejo e o grande número de fantasias sexuais que ocupam a mente da pessoa (normalmente, tais indivíduos não ficam só na fantasia, e a doença os leva a comportamentos sexuais exagerados e, às vezes, perigosos) deixando-a inquieta e impedindo-a de fazer outras coisas de maneira concentrada e coerente. Há um aumento da freqüência sexual aliada a compulsão pelo ato e o controle inadequado do impulso, o que muitas vezes caracteriza um grande sofrimento. A pessoa com tal comportamento, ocupada seus pensamentos, vira escrava dos próprios desejos, prejudicando relacionamentos afetivos, a própria saúde e atividades diárias. É comum que quando tenta impedir o impulso sexual, apareça um alto nível de tensão ou ansiedade. Pode-se perceber que tanto na esfera pessoal quanto na social os prejuízos são muitos.
É freqüente comportamentos sexuais exagerados e perigosos. Vale ressaltar que a questão não é pensar em sexo, mas a forma de pensar em sexo (compulsiva, repetitiva e com um caráter não evitativo). Ainda assim para que ocorra um caráter patológico, tal comportamento deve causar acentuado sofrimento emocional e proporcionar sérias conseqüências interpessoais, familiares, ocupacionais e financeiras.
Os padrões de promiscuidade de uma pessoa com compulsão sexual são variados. Podem envolver vários parceiros, estarem relacionados ao exibicionismo ou voyerismo, além de masturbação compulsiva e vontade compulsória de sedução amorosa ou dependência extrema de uma ou várias pessoas, pedofilia e até estupro (nesses casos, pode-se fazer uso de algumas medicações hormonais a base de progesterona, para que ocorra a diminuição do desejo sexual). Normalmente, uma pessoa relata uma ou duas áreas principais de 'atuação da compulsão', mas pode envolver tudo o que foi mencionado anteriormente. Tal padrão acarreta uma debilitação da vida profissional e familiar, além do significado de amor próprio.
É comum que tais pessoas carreguem sentimento de culpa, desconforto e forte angústia. Pode-se dizer que ocorre um tripé de sentimentos relacionados ao caráter compulsivo dessa sexualidade:
- Primeiro, ocorre uma sensação crescente de tensão ou excitação anterior a atividade sexual.
- Com a sua execução há uma intensa gratificação ou alívio após o orgasmo e uma culpa constante após o ato.
- O fracasso em resistir a tal impulso aumenta a sensação de culpa.
A terapia busca a conquista do respeito pela autonomia e entendimento do sofrimento relacionado a tal comportamento. Normalmente, quando a pessoa chega ao consultório do profissional, muitas vezes sua auto-estima está muito baixa por se consideram pervertidas e/ou fracas. A perda do controle do próprio comportamento, considerado por alguns até mesmo como destrutivo, provoca conseqüências negativas que pioram caso uma ajuda não seja procurada o quanto antes. A idéia é fazer com que a pessoa aprenda a lidar com a sua dependência, se dando conta de que existem outras formas de se relacionar consigo e com o meio, estimulando a busca de um espaço onde ela reconheça a importância de desenvolver uma sexualidade saudável e a dignidade pessoal, gerando relacionamentos de satisfação. Mas para que isso ocorra, é fundamental que a própria pessoa possa perceber a necessidade de ajuda.
É freqüente a resistência em procurar ajuda terapêutica devido a crença de que irão conseguir sair dessa situação por si ou que ainda não chegaram ao ‘fundo do poço’. Mas quando se resolve pela ajuda de um profissional especializado, freqüentemente, a pessoa está altamente motivada, sedenta de mudança. Outras, não menos motivadas, se sentem amedrontadas com tal possibilidade, pois se acostumaram com um ambiente onde há muita hipocrisia, pouco espaço para colocar a sexualidade de forma aberta e sem julgamentos.
Ana Paula Veiga
Psicóloga e sexóloga
